segunda-feira, 15 de junho de 2020

Imperatriz é uma cidade imunizada?

Wellington da Silva Conceição



          A ciência tem uma grande importância social. Seus dados são úteis, por exemplo, para denunciar uma política pública ineficaz ou até mesmo apontar seus acertos. São úteis ainda, nesse tempo de pandemia, para nortear as políticas de saúde, mostrar onde os quadros mais se agravam e onde a presença do coronavírus retrocede. Porém os dados, quando mal manuseados, podem ser utilizados como forma de apresentar um quadro falacioso, ao sabor de ideologias políticas. Vou mostrar como isso pode acontecer com um exemplo fora do universo da ciência. Imagina se eu lhe contasse – com ar de vitorioso - que a seleção brasileira, em um jogo contra a da Alemanha, foi o time que mais teve a posse de bola e que ainda fez um gol. Agora, acredite: esse foi o mesmo fatídico jogo em que levamos 7 gols na copa do mundo de 2014, partida que ficou tão marcada em nossa memória que se tornou sinônimo de derrotas constrangedoras. As primeiras informações apresentadas não são mentirosas, mas isoladas das demais, nos levam a uma leitura errônea do que foi essa histórica partida.

         Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pelotas em parceria com o Instituto IBOPE – encomendada pelo ministério da Saúde- está fazendo testes rápidos para Covid-19 em 133 cidades brasileiras, para identificar os que tem anticorpos, ou seja, os que foram expostos ao coronavírus em algum momento, tendo apresentado os sintomas da Covid-19 ou não. O objetivo da pesquisa é identificar a quantidade de pessoas expostas ao vírus a partir de uma amostragem – uma metodologia de pesquisa quantitativa que, com rigor e métodos eficazes – consegue, ao realizar pesquisa com uma parte da população, chegar a um valor aproximado do todo. É um sistema parecido com aquele dos métodos de pesquisa eleitoral. No geral, as chances de acerto são grandes. Os dados revelados por essa pesquisa não são nada animadores. O primeiro deles indica que os casos de Contágio pelo coronavírus no Brasil são 7 vezes maiores que os números confirmados pelas secretarias de saúde. Outro dos dados apresentados indicam que a região Norte e Nordeste são as mais atingidas pelo Vírus. As capitais que apresentam maior proporção de infectados estão no Norte e Nordeste do país, entre elas. Fortaleza, Manaus, Belém e Macapá.

         Na última quinta-feira (11/06), um novo conjunto de dados dessa pesquisa foi revelado,  coletado entre 14 e 21 de maio de 2020. Sobre a cidade de Imperatriz, identificou-se que 16,5% da população foi exposta ao coronavírus, ou seja, apresenta seus anticorpos. A prefeitura anunciou o dado de forma exitosa, se colocando como a cidade do Nordeste com maior proporção de pessoas imunizadas[1]. A notícia não é mentirosa (apesar da possibilidade de uma reinfecção não ter sido ainda descartada), mas é como contar o jogo sem falar dos sete gols. Em primeiro lugar, mostra a ineficiência das testagens na cidade: os números de casos confirmados em Imperatriz não chegam a 1% do total da população. É como se tivéssemos para cada caso confirmado – em média – outros 15 que não entraram para as estatísticas. Um dado alarmante, que nos permite perceber o quão longe estamos de compreender – a partir dos casos confirmados – o que acontece nessa cidade sul maranhense. Outro ponto a se ressaltar, é que – provavelmente -  83,5% da população ainda não teve contato com o coronavírus, o que é a sua grande maioria. A chamada “imunidade de rebanho”, que exige uma média de 70% da população com histórico de exposição ao vírus, ainda é uma realidade muito distante.

        Portanto, se vangloriar de ser a cidade mais imunizada do Nordeste é contar vantagem com um gol quando tomamos sete. É uma atitude irresponsável, que leva uma falsa ideia de tranquilidade e que expõe mais 80% da população a novas contaminações. Essa irresponsabilidade pode provocar o colapso do sistema de saúde local e gerar muitas mortes que poderiam ser evitadas. Como vimos, ainda estamos perdendo o jogo, e de forma constrangedora. Fique em casa, se puder!





Fonte da magem: oglobo [2]







sábado, 12 de outubro de 2019

Para todos astros do Rock existem os Roadies (Reflexão)


 Há cinco anos tenho observado como os comportamentos egóicos manifestados em rituais acadêmicos de formaturas e defesas, dos mais diferentes trabalhos de conclusão. Há um conjunto de expressões, imagens e narrativas que ressaltam as qualidades individuais dos formandos, e ocultam a importância dos interlocutores, nativos, orientadores e agências de fomento. Um comportamento elitista que marca o modus operandi de uma reprodução social das desigualdades, já que sempre esconde todo um conjunto de condições de vantagens sobre a falácia da meritocracia. Com o advento do REUNI e uma ideia de expansão e democratização do acesso as universidades públicas, tivemos nossos corredores cheios de outras composições sociais, de uma diversidade que representava um rico campo de onde é possível demonstrar que as condições fazem toda a diferença no momento da formação.

  Por esses dias aprendi na prática, o que um sábio interlocutor me explicou anos atrás: “um de meus arrependimentos (na militância) foi em não termos conseguido criar uma semente, mais forte de associativismo, pois depois que eles conseguiram acesso ao serviço o público, seguiram com posições egóicas e colocaram tudo a perder”.

  A moral da história é que a consciência de organização e a compreensão do próprio papel diante do reconhecimento das conquistas coletivas possuía uma importância tão grande quanto o próprio recurso conquista por meio das lutas sociais por direitos.A forma como as pessoas compreendem as “próprias” conquistas é o calcanhar de Aquiles de qualquer processo associativo mais amplo. A forma como elas apresentam as conquistas pode reforçar e ritualizar toda a beleza dos processos coletivos ou reproduzir um modus operandi que serve de base para a ideia de meritocracia, tão difundida pelas elites.


  Vivendo os dois tipos de situação (dos reconhecimentos coletivos e dos reforços a ideia de meritocracia) convido nossos colegas para refletir sobre que tipo de universidades estamos criando. Mais que experiências individuais, penso que as situações de “reconhecimento” e “ocultamento” prejudicam as bases das instituições de ensino, pois não valorizam pilares importantes da pesquisa: agências de fomento, grupos de pesquisa e professores. Pilares constantemente adjetivados de forma pejorativa como improdutivas zebras gordas etc..

 Para os que compreendem, apenas, o aspecto pitoresco das situações, não se trata apenas discente que se projetam como “heróis solitários”, mas do próprio futuro e das dinâmicas internas das instituições de ensino. Universidade é coisa séria, não é filme de rambo, comédia pastelão nem profecia individualista. Não estamos falando do Fluminense Vs o Flamengo, do esforçado Daniel San contra a academia malvada Kobra Kai ou de qualquer outro heróis solitário que derrota todas as dificuldades, nossas instituições necessitam de enquadramentos mais complexos e são especiais, justamente pelo aspecto democrático e capacidade de combate as visões e (di)visões de mundo e alterar as estruturas sociais de acessos aos capitais culturais, simbólicos e sociais. Enfim reconhecer o papel institucional e a importância dos professores, agências de pesquisa significa também valorizar um processo de mudança implementado a partir do REUNI, significa se enxergar como um pequeno grão dentro de um processo complexo(outra função da sociologia na compreensão de sociedade) e não como o grau mestre de tudo.

  Mais que simples rituais de valorização do “eu”, os comportamentos egóicos nos momentos de consagração sinalizam uma cultura que não reconhece a importância das conquistas sociais nas últimas décadas. Oferecem uma visão simplista de mundo com grande poder de corrosão e destruição de estruturas coletivas institucionais.

 Não existe show e nem estrelas nos palcos sem os esforços dos Roadies (poderosa equipe de técnicos, montadores, motoristas e engenheiros de som) que montam todo o cenário para que as estrelas possam brilhar junto aos seus fãs.  Enfim, a questão que pretendo deixar é: que tipo de universidade desejamos? Como podemos valorizar nossas instituições a partir do próprio “espírito” coletivo que é próprio das naturezas institucionais? Para a área de sociologia, a que lida diretamente com esses objetos, penso que seja uma responsabilidade ainda maior.

Para finalizar essa reflexão, deixo um belo exemplo de respeito, reconhecimento e reforço das instituições, por meio da postagem de Paulo Vitor de Oliveira Cardoso, discente do curso de medicina da Universidade Federal do Maranhão.






Jesus Marmanillo 12/10/2019

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Por que estudar Sociologia no ensino médio?

Por: Jesus Marmanillo Pereira

Assim como para muitos colegas, a pergunta “por que estudar sociologia?” também me foi colocada nas turmas onde entrei, quando iniciei a docência no nível médio em 2010.  Como explicar isso para alunos cujas ciências humanas foram limitadas nas disciplinas de História e Geografia por longos anos?  Longe de fornecer uma explicação final, trarei aqui pelo menos três justificativas que considero importantes. Trata-se de justificativas que foram buscadas na própria história do ensino de sociologia no Brasil, em minha experiência cotidiana da época em que lecionava no ensino médio, e na própria documentação produzida (Parâmetros Curriculares Nacionais, Lei de Diretrizes e Bases) para orientar o ensino de Sociologia.

1 - Aspectos históricos

Benjamin Constant e Augusto Comte
Para quem pensa que a Sociologia é uma disciplina recente que introduzida em 2008  no ensino médio, é importante enfatizar que ela foi inserida nesse nível desde 1890, quando Benjamin Constant publicou o decreto 981/1890 que regulamentava o ensino primário e secundário no Distrito Federal(NEUHOLD,2013). Naquele ano a disciplina passou a ser uma disciplina obrigatória, no ensino secundário público e também no ensino militar.

Em 1901 a ela foi retirada das grades curriculares, com a promulgação da Reforma Epitácio Pessoa. Vinte e quatro anos depois,  retornou por meio da Reforma Rocha Vaz, durante o governo de Artur Bernardes. Já em 1931 a Reforma Francisco Campos faz com que a  Sociologia voltasse  para os quadros de matérias complementares destinadas ao preparo dos alunos que desejavam ingressar nos cursos de nível superior. Essa última mudança deixa clara a tendência cientifica e o papel exclusivo da disciplina- para os poucos que tinham condições de investir na educação superior (FLORÊNCIO, 2007).
Depois de 1930, ela penetrou no ensino secundário e superior, começou a ser invocada como instrumento de análise social, dando lugar ao aparecimento de um número apreciável de cultores especializados, devendo-se notar que os primeiros brasileiros de formação universitária sociológica adquirida no próprio país formaram-se em 1936(CÂNDIDO, 2006).

O Sociólogo Enno D. Liedke Filho, explica que na década de 1930 houve o surgimento de uma sociologia de cátedra, ou seja, quando alcançou as disciplinas universitárias e promoveu a profissionalização da área, que até então era praticamente aberta para qualquer especialista que desejasse explicar a sociedade. Segundo ele a institucionalização acadêmica da Sociologia no Brasil ocorreu em meados da década de 1930, com a criação da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (1933) e com a criação da Seção de Sociologia e Ciência Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (1934).


 Nesse contexto, é importante ressaltar que: O período que se estende de 1925 a 1942, representa os anos dourados no ensino da sociologia. Seu prestígio sai do mundo acadêmico e atinge o cotidiano das classes médias [...]. Termos sociológicos se popularizam. Sua divulgação ocorre por meio da imprensa escrita e do rádio, que cada vez mais passam a utilizar o jargão sociológico em sua linguagem. O uso de termos como classes sociais, capital, alienação, feminismo, desenvolvimento social, crise moral e proletariado [...] ilustram a popularização desta ciência [...]. (MEKSENAS APUD FLORÊNCIO, 2007, p.6). Depois de 1942, a Reforma de Capanema retira a obrigatoriedade do ensino de sociologia na escola secundária.

Durante a ditadura militar em 1971, o governo determinou que a sociologia deixasse de ser lecionada nas escolas. Trinta anos depois, o congresso aprovou o retorno da disciplina nas escolas de nível médio, mas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - que era, inclusive, sociólogo pela Universidade de São Paulo- vetou a aprovação, argumentando que não existia um contingente de professores para suprir a demanda do ensino de sociologia, no nível médio. Em 2008, o presidente em exercício, José de Alencar (Vice-presidente do Luís Inácio Lula da Silva) sancionou a lei que garantia que a disciplina fosse obrigatória no ensino médio, estabelecendo o prazo de três anos para que todas as escolas se adequassem.


II - Sociologia na Sala de aula

Uma informação que necessita ser bastante divulgada é sobre a importância do conhecimento sociológico para a compreensão e diálogo com as áreas de História e Geografia. Tendo graduação e um pouco de experiência nessas áreas, uma coisa que sempre falei para os alunos do Colégio Liceu Maranhense é que: 1) A compreensão da revolução francesa não é possível sem uma interpretação sociológica da relação entre os três estados franceses, e 2) Pontos como migração, geopolítica e demografia podem ser mais bem explicados em relação aos temas de mobilidade social, estado, poder e identidade, elucidando a importância da Sociologia como uma peça que integra todas as áreas das Ciências Humanas.

 Desde o final do século XIX a História e a Geografia têm desenvolvido um diálogo intenso com a sociologia, resultando disso uma ênfase cada vez maior dessas áreas sobre os componentes sociais e humanos que interferem na construção de fatos históricos e mudanças nas paisagens geográficas. Contudo, cabe a Sociologia uma atenção maior e mais profunda sobre a análise da sociedade. Para o sociólogo as relações sociais, as formas como as pessoas se associam são os verdadeiros protagonistas da história e do espaço.  Talvez por isso Karl Marx percebeu a luta de classes como o “motor” da História, e não a história como o motor da luta de classes.

III - Sociologia na vida

Nas leis de Diretrizes e Bases da educação (LDB nº 9.394/96, Art. 36, § 1o, III) o conhecimento sociológico aparece como relacionado ao exercício pleno da cidadania.  Grosso modo, a Sociologia tende a ampliar a visão de mundo dos alunos, fazendo com que se percebem dentro de algo maior, como integrante de um todo social.  A compreensão de si próprio em relação ao grupo, possibilita refletir sobre aspectos relacionados aos papeis sociais, a importância da interdependência e divisão do trabalho.
Ao se perceber a importância das instituições, ele poderá adquirir outra visão sobre as regras e o sentimento de pertencimento. Por outro lado, essa relação entre o individuo e sociedade também possibilita pensar outro caminho(os das mudanças sociais) para se refletir sobre a formação das instituições.  Mas, seja qual for o caminho ( do individuo integrado a algo maior,  ou a de algo maior sendo construído por indivíduos)  as relações sociais, as interdependências são sempre elementos comuns para qualquer sociólogo.  

Sociologia Ilustrada


A sociologia possibilita a construção de uma visão (não compartimentada) sobre a sociedade, possibilitando entender como ocorrem às relações entre diferentes instituições, destacando rupturas e continuidades provenientes dos processos de mudança. Por exemplo, compreender a importância da instituição familiar para as instituições religiosas ou escolares.  As relações entre as instituições econômicas e políticas. Enfim, trata-se de uma disciplina que forma cidadãos com uma compreensão sistemática de sociedade que dialoga com outras áreas e formas de conhecimento. É possível averiguar, mais detalhadamente, um conjunto de habilidades e competências da Sociologia nos Parâmetros Curriculares Nacionais das Ciências Humanas

Conclusão

Considerando os aspectos históricos da Sociologia no Brasil, a experiência de docência na disciplina que tive no Colégio Liceu Maranhense e algumas habilidades e competências que ela possibilita ao aluno, é possível concluir que é uma disciplina que foi marcado na história como resultado de várias reformas educacionais, que não podemos esquecer que estavam vinculadas a determinados governos e atores sociais.  Trata-se de uma disciplina especializada nos fenômenos sociais, e por conta, disso com mais aprofundamento na compreensão do homem em suas relações cotidianas e extra cotidianas.  
Enquanto alguns intelectuais partem dos tempos históricos e as paisagens para compreender a sociedade, o Sociólogo parte da própria sociedade e analisa como suas ações deixam marcas no tempo e no espaço. Longe de esgotar todas as possibilidades de evidência a cerca da importância do ensino de Sociologia, conclui-se, sinteticamente, que essa disciplina possibilita uma compreensão e visualização dos mecanismos fundamentais da sociedade, por isso, evidencia também possibilidades de mudança a partir de situações sociais concretas observadas no dia a dia.  Por esse caminho é possível vislumbrar a cidadania na prática.

Referência
CANDIDOAntonio. “A sociologia no Brasil”. In: Tempo Social. Revista de sociologia da USP, v. 18, no 1, 2006
NEUHOLD, Roberta dos Reis. Positivismo e ensino de Sociologia: notas sobre as propostas de Benjamin Constant para o ensino secundário e as escolas normais nos primeiros anos da República. Saberes em Perspectiva, v. 3, p. 15-28, 2013.
LIEDKE FILHO, Enno D.. A Sociologia no Brasil: história, teorias e desafios.Sociologias,  Porto Alegre ,  n. 14, p. 376-437,  Dec.  2005
FLORÊNCIO, M. A. L.. A Sociologia no Ensino Médio: a trajetória historica no Brasil e em Alagoas. In: PLANCHEREL, Alice Anabuki; OLIVEIRA, Evelina Antunes F. de. (Org.). Leituras Sobre a Sociologia no Ensino Médio. Maceió: EDUFAL, 2007, v. , p.