domingo, 25 de fevereiro de 2018

Por que estudar Sociologia no ensino médio?

Por: Jesus Marmanillo Pereira

Assim como para muitos colegas, a pergunta “por que estudar sociologia?” também me foi colocada nas turmas onde entrei, quando iniciei a docência no nível médio em 2010.  Como explicar isso para alunos cujas ciências humanas foram limitadas nas disciplinas de História e Geografia por longos anos?  Longe de fornecer uma explicação final, trarei aqui pelo menos três justificativas que considero importantes. Trata-se de justificativas que foram buscadas na própria história do ensino de sociologia no Brasil, em minha experiência cotidiana da época em que lecionava no ensino médio, e na própria documentação produzida (Parâmetros Curriculares Nacionais, Lei de Diretrizes e Bases) para orientar o ensino de Sociologia.

1 - Aspectos históricos

Benjamin Constant e Augusto Comte
Para quem pensa que a Sociologia é uma disciplina recente que introduzida em 2008  no ensino médio, é importante enfatizar que ela foi inserida nesse nível desde 1890, quando Benjamin Constant publicou o decreto 981/1890 que regulamentava o ensino primário e secundário no Distrito Federal(NEUHOLD,2013). Naquele ano a disciplina passou a ser uma disciplina obrigatória, no ensino secundário público e também no ensino militar.

Em 1901 a ela foi retirada das grades curriculares, com a promulgação da Reforma Epitácio Pessoa. Vinte e quatro anos depois,  retornou por meio da Reforma Rocha Vaz, durante o governo de Artur Bernardes. Já em 1931 a Reforma Francisco Campos faz com que a  Sociologia voltasse  para os quadros de matérias complementares destinadas ao preparo dos alunos que desejavam ingressar nos cursos de nível superior. Essa última mudança deixa clara a tendência cientifica e o papel exclusivo da disciplina- para os poucos que tinham condições de investir na educação superior (FLORÊNCIO, 2007).
Depois de 1930, ela penetrou no ensino secundário e superior, começou a ser invocada como instrumento de análise social, dando lugar ao aparecimento de um número apreciável de cultores especializados, devendo-se notar que os primeiros brasileiros de formação universitária sociológica adquirida no próprio país formaram-se em 1936(CÂNDIDO, 2006).

O Sociólogo Enno D. Liedke Filho, explica que na década de 1930 houve o surgimento de uma sociologia de cátedra, ou seja, quando alcançou as disciplinas universitárias e promoveu a profissionalização da área, que até então era praticamente aberta para qualquer especialista que desejasse explicar a sociedade. Segundo ele a institucionalização acadêmica da Sociologia no Brasil ocorreu em meados da década de 1930, com a criação da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (1933) e com a criação da Seção de Sociologia e Ciência Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (1934).


 Nesse contexto, é importante ressaltar que: O período que se estende de 1925 a 1942, representa os anos dourados no ensino da sociologia. Seu prestígio sai do mundo acadêmico e atinge o cotidiano das classes médias [...]. Termos sociológicos se popularizam. Sua divulgação ocorre por meio da imprensa escrita e do rádio, que cada vez mais passam a utilizar o jargão sociológico em sua linguagem. O uso de termos como classes sociais, capital, alienação, feminismo, desenvolvimento social, crise moral e proletariado [...] ilustram a popularização desta ciência [...]. (MEKSENAS APUD FLORÊNCIO, 2007, p.6). Depois de 1942, a Reforma de Capanema retira a obrigatoriedade do ensino de sociologia na escola secundária.

Durante a ditadura militar em 1971, o governo determinou que a sociologia deixasse de ser lecionada nas escolas. Trinta anos depois, o congresso aprovou o retorno da disciplina nas escolas de nível médio, mas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - que era, inclusive, sociólogo pela Universidade de São Paulo- vetou a aprovação, argumentando que não existia um contingente de professores para suprir a demanda do ensino de sociologia, no nível médio. Em 2008, o presidente em exercício, José de Alencar (Vice-presidente do Luís Inácio Lula da Silva) sancionou a lei que garantia que a disciplina fosse obrigatória no ensino médio, estabelecendo o prazo de três anos para que todas as escolas se adequassem.


II - Sociologia na Sala de aula

Uma informação que necessita ser bastante divulgada é sobre a importância do conhecimento sociológico para a compreensão e diálogo com as áreas de História e Geografia. Tendo graduação e um pouco de experiência nessas áreas, uma coisa que sempre falei para os alunos do Colégio Liceu Maranhense é que: 1) A compreensão da revolução francesa não é possível sem uma interpretação sociológica da relação entre os três estados franceses, e 2) Pontos como migração, geopolítica e demografia podem ser mais bem explicados em relação aos temas de mobilidade social, estado, poder e identidade, elucidando a importância da Sociologia como uma peça que integra todas as áreas das Ciências Humanas.

 Desde o final do século XIX a História e a Geografia têm desenvolvido um diálogo intenso com a sociologia, resultando disso uma ênfase cada vez maior dessas áreas sobre os componentes sociais e humanos que interferem na construção de fatos históricos e mudanças nas paisagens geográficas. Contudo, cabe a Sociologia uma atenção maior e mais profunda sobre a análise da sociedade. Para o sociólogo as relações sociais, as formas como as pessoas se associam são os verdadeiros protagonistas da história e do espaço.  Talvez por isso Karl Marx percebeu a luta de classes como o “motor” da História, e não a história como o motor da luta de classes.

III - Sociologia na vida

Nas leis de Diretrizes e Bases da educação (LDB nº 9.394/96, Art. 36, § 1o, III) o conhecimento sociológico aparece como relacionado ao exercício pleno da cidadania.  Grosso modo, a Sociologia tende a ampliar a visão de mundo dos alunos, fazendo com que se percebem dentro de algo maior, como integrante de um todo social.  A compreensão de si próprio em relação ao grupo, possibilita refletir sobre aspectos relacionados aos papeis sociais, a importância da interdependência e divisão do trabalho.
Ao se perceber a importância das instituições, ele poderá adquirir outra visão sobre as regras e o sentimento de pertencimento. Por outro lado, essa relação entre o individuo e sociedade também possibilita pensar outro caminho(os das mudanças sociais) para se refletir sobre a formação das instituições.  Mas, seja qual for o caminho ( do individuo integrado a algo maior,  ou a de algo maior sendo construído por indivíduos)  as relações sociais, as interdependências são sempre elementos comuns para qualquer sociólogo.  

Sociologia Ilustrada


A sociologia possibilita a construção de uma visão (não compartimentada) sobre a sociedade, possibilitando entender como ocorrem às relações entre diferentes instituições, destacando rupturas e continuidades provenientes dos processos de mudança. Por exemplo, compreender a importância da instituição familiar para as instituições religiosas ou escolares.  As relações entre as instituições econômicas e políticas. Enfim, trata-se de uma disciplina que forma cidadãos com uma compreensão sistemática de sociedade que dialoga com outras áreas e formas de conhecimento. É possível averiguar, mais detalhadamente, um conjunto de habilidades e competências da Sociologia nos Parâmetros Curriculares Nacionais das Ciências Humanas

Conclusão

Considerando os aspectos históricos da Sociologia no Brasil, a experiência de docência na disciplina que tive no Colégio Liceu Maranhense e algumas habilidades e competências que ela possibilita ao aluno, é possível concluir que é uma disciplina que foi marcado na história como resultado de várias reformas educacionais, que não podemos esquecer que estavam vinculadas a determinados governos e atores sociais.  Trata-se de uma disciplina especializada nos fenômenos sociais, e por conta, disso com mais aprofundamento na compreensão do homem em suas relações cotidianas e extra cotidianas.  
Enquanto alguns intelectuais partem dos tempos históricos e as paisagens para compreender a sociedade, o Sociólogo parte da própria sociedade e analisa como suas ações deixam marcas no tempo e no espaço. Longe de esgotar todas as possibilidades de evidência a cerca da importância do ensino de Sociologia, conclui-se, sinteticamente, que essa disciplina possibilita uma compreensão e visualização dos mecanismos fundamentais da sociedade, por isso, evidencia também possibilidades de mudança a partir de situações sociais concretas observadas no dia a dia.  Por esse caminho é possível vislumbrar a cidadania na prática.

Referência
CANDIDO, Antonio. “A sociologia no Brasil”. In: Tempo Social. Revista de sociologia da USP, v. 18, no 1, 2006
NEUHOLD, Roberta dos Reis. Positivismo e ensino de Sociologia: notas sobre as propostas de Benjamin Constant para o ensino secundário e as escolas normais nos primeiros anos da República. Saberes em Perspectiva, v. 3, p. 15-28, 2013.
LIEDKE FILHO, Enno D.. A Sociologia no Brasil: história, teorias e desafios.Sociologias,  Porto Alegre ,  n. 14, p. 376-437,  Dec.  2005
FLORÊNCIO, M. A. L.. A Sociologia no Ensino Médio: a trajetória historica no Brasil e em Alagoas. In: PLANCHEREL, Alice Anabuki; OLIVEIRA, Evelina Antunes F. de. (Org.). Leituras Sobre a Sociologia no Ensino Médio. Maceió: EDUFAL, 2007, v. , p. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Violência urbana e o medo Violência e desagregação das relações sociais urbanas



Folheando o livro de crônicas Vida urbana (1956), é possível perceber que o escritor pré-modernista Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido como Lima Barreto, já demonstrava certa inquietude com a questão da violência na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Orientando-se pelos fatos cotidianos da época, esse literato nos aponta que não é de hoje que a violência é um problema que tem mobilizado esforços de pensadores e intelectuais.

Mesmo após tantos anos, a violência urbana ainda assombra os moradores das cidades grandes e médias, modificando comportamentos e formas de viver os espaços públicos e de habitar as cidades. Sobre o contexto atual, órgãos de pesquisa e segurança pública também têm demonstrado um cenário caótico e violento. Um exemplo disso pode ser verificado no último “Atlas da Violência” produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o documento, ocorreram respectivamente 50 e 53 mil mortes entre os anos de 2008 e 2011, o que representa 10% dos homicídios registrados em todo o mundo. Tal situação é valorizada nas páginas policiais dos impressos jornalísticos e nos principais programas televisivos, voltados para assuntos policiais, enfatizando ainda mais a sensação de vulnerabilidade dos transeuntes, bem como a imprevisibilidade e a crueldade dos crimes (Barreira, 2003).

Entre os efeitos desse problema é possível observar comportamentos que sinalizam o sentimento de medo e o desejo de preservação da integridade física do corpo. Assim, este ensaio partiu da ideia de que mudanças de comportamento e organização social – ocasionadas pelo sentimento de medo e insegurança – são acompanhadas, também, por alterações nas formas de organização dos espaços público e privado, principalmente nas tendências habitacionais dos condomínios e equipamentos de segurança que são espalhados na paisagem urbana. Enfim, este texto visa explanar e refletir sobre a forma como tal sentimento pode ser pensado em relação às formas de organização social e espacial, implicadas diretamente em processos de segregação e estigma.
Vale destacar que há um conjunto de autores (Koury, 2000; Silva, 2005; Eckert; Rocha, 2007) que tem enfatizado o efeito do medo nas formas de organização de indivíduos e grupos que habitam as cidades. Eles percebem que o sentimento de medo é um elemento que está diretamente ligado aos processos de sociabilidades e desagregação das relações sociais nas cidades, pois, muito atrelado aos contextos de insegurança, o medo vem gerando a reclusão dos indivíduos nos ambientes privados e criando novas formas de viver a cidade.

Não são poucos os relatos de pessoas que experimentaram o sentimento de medo ao cruzar com um desconhecido em uma rua escura e deserta. O desconhecimento sobre o outro é um dos principais fatores de medo, mais especificamente o medo da violência física, capaz de gerar conclusões próximas dos dizeres de Morais (1981, p. 16), que afirma que “onde há medo, há ameaças; e onde estão as ameaças está a violência”.
Um dos efeitos práticos disso é que a sociabilidade entre pessoas nos espaços públicos e privados tem sido orientada, respectivamente, tanto pela objetividade, frieza e dificuldade em realizar interações, quanto por um forte aparato tecnológico de segurança, que visa transmitir a sensação de autopreservação e mediar as relações entre os espaços públicos e privados. Trata-se, assim, de um contexto de predomínio do medo do “outro”.
Se por um lado as cidades são observadas por conta de alta densidade populacional, ou seja, maior concentração de habitantes no espaço, por outro lado os muros, cercas elétricas, grades e outros meios de separação têm demarcado com bastante notoriedade diferentes realidades da paisagem urbana. Sobre isso Caldeira (2000) percebe que a violência e o medo ocasionaram uma série de mudanças na arquitetura urbana e na constituição de enclaves fortificados que cultivam uma relação de negação com o resto da cidade.

Utilizando um trecho do romance O estorvo, de Chico Buarque, que apresenta um novo estilo de vida por trás dos muros, guaritas e vigias, Caldeira (2000) explica que os condomínios fechados constituem uma nova perspectiva de moradia nas idades, marcada pelo status e toda a simbologia das elites urbanas. Asmudanças na forma de habitar também são analisadas por Rocha e Eckert (2013) no capítulo “Cidade sitiada: o medo como intriga”, no qual explicam o processo de produção do documentário antropológico Cidade sitiada, seus fantasmas e seus medos, que, grosso modo, expõe as experiências vividas por Marilda e Augusto, uma empregada doméstica e um engenheiro cujas percepções e comportamentos também são orientados pelas mudanças ocorridas na cidade, e, em especial, pelo aumento da violência. Outra importante referência é o livro Medos corriqueiros e sociabilidade, que é constituído por um conjunto de textos produzidos no âmbito do projeto “Medos corriqueiros: a construção social da semelhança e dessemelhança entre os habitantes urbanos das cidades brasileiras na contemporaneidade”, coordenado pelo pesquisador Mauro Guilherme Pinheiro Koury, na cidade de João Pessoa (PB).



Grosso modo, além de se concluir que tais análises são orientadas para compreender os impactos sociais dos sentimentos de medo sobre as formas de organização, é possível inferir que a desagregação e dessemelhanças, ordenadas por muros, constituem situações de isolamento, segregação e estigmatização que tornam os “outros” um tipo de entidade cada vez mais distante e invisibilizado. Pois, se por um lado os longos muros preservam pequenas ilhas de riqueza, por outro também representam um tipo de fronteira simbólica que segrega segmentos socioeconomicamente frágeis. Em uma analogia com a relação entre o “eu” e o “outro” caracterizados nos europeus e índios, pode-se pensar que cada muro ou grade possui uma intenção de separação de proporções oceânicas.

Nesse âmbito, crê-se que um dos principais problemas relativos à estigmatização e segregação de determinados grupos urbanos é a naturalização que é feita a respeito da associação criminalidade-pobreza. Sobre isso Benevides (1983) reconhece o caráter polêmico e ambíguo dessa associação e ressalta um problema crucial para os grupos marginalizados, que se configura na medida em que, sendo pobres, tornam-se automaticamente suspeitos, gerando uma falsa “legitimidade” para os procedimentos violentos e arbitrários da polícia. Para a autora, o estigma do pobre como marginal acaba sendo incorporado por vários setores da população, que chegam inclusive a dar apoio para a “ação brutal das batidas nas favelas, nos bairros miseráveis, bem como nos ‘rondões’ urbanos e, evidentemente, as prisões ilegais para averiguação” (Benevides, 1983, p. 50).

Resenha do filme Trabalhar Cansa

Sobre a relação entre violência e estigma, no artigo “Cidades sob o signo do medo: notas sobre as populações periféricas estigmatizadas de São Luís, da década de 1980 aos dias atuais”, Pereira (2012) percebe que além das classificações estigmatizantes possuírem uma lógica similar ao das relações entre grupos, também são alimentadas pela imprensa escrita. Nesse sentido, o papel do pesquisador seria analisar as condições históricas e sociais que propiciam situações de estigmatização, e não apenas dirigir os esforços sobre os atos discriminatórios de forma isolada. É como se o ato em si fosse somente a ponta do iceberg e as explicações sobre sua causa ficassem submersas sob as águas do preconceito e senso comum.

Percebendo que os impressos caracterizaram determinados bairros como os mais perigosos pelo elevado número de homicídios, o autor não se limita à primeira classificação realizada pela imprensa escrita e busca outros elementos para explicar a formação daqueles espaços, chegando a concluir que as classificações estigmatizantes estavam presentes sobre aqueles moradores desde a chegada deles ao local onde habitavam. Noticiadas como invasões durante a década de 1980, as áreas estudadas passaram a ser cada vez mais publicizadas como as mais violentas, constituindo um conjunto de informações negativas que geralmente são levadas em conta nas relações e interações entre pessoas do restante da cidade com moradores dos bairros estigmatizados.
 
Informações pejorativas, e desprovidas de uma análise séria, não estão dissociadas dos desejos de determinadas empresas interessadas naquelas áreas ou de pessoas que as estigmatizam para deter algum tipo de controle sobre essas populações. Assim, possuem efeitos práticos que podem ser observados na desvalorização dos terrenos, nos preconceitos contra moradores de áreas pobres e como informações que tendem a “justificar” a violência policial, como já explicou Benevides (1983). É possível observar e separar uma relação complexa na qual se destacam pelo menos dois tipos de relação voltadas para os segmentos estigmatizados: primeiramente a relação entre os grupos que estigmatizam e os estigmatizados; e a relação entre os estigmatizados e os que reproduzem o estigma nas práticas cotidianas.

Não se quer dizer que os que reproduzem o estigma também não o realizem, contudo é necessário diferenciar as diversas motivações que servem de orientação para as ações, pois, se há interesse na desvalorização de determinadas áreas, essas também são evitadas por muitos por conta do sentimento de medo. O medo, portanto, também pode ser compreendido como um importante “combustível” no desenvolvimento de estigmas e pode-se falar até em uso social dele para gerar estereótipos sobre determinados grupos.

Enfim, as classificações pejorativas devem ser consideradas não apenas da boca para fora, mas também de acordo com o conjunto de características de quem as produz, para que não fiquemos reféns das palavras apenas pelas palavras. É preciso, assim, reforçar o significado dos símbolos com capacidade de mediação entre ideias e pessoas. Se no princípio básico da comunicação e da linguagem nota-se uma estrutura composta pela pessoa que comunica, pelo signo e pelo receptor, acredita-se ser necessário problematizar o fato, perguntar-se quais os motivos da comunicação, como elas se desenvolvem e como as informações são recebidas, produzidas etc. Se inicialmente pensamos a desagregação social ocasionada pelo processo de isolamento, que por sua vez acaba se materializando nas estruturas dos condomínios fechados e caracterizando uma separação nítida que é alimentada, muitas vezes, pelos sentimentos de medo e insegurança, também é importante destacar que tais separações espaciais ocorrem nos âmbitos das relações sociais que, uma vez espacialmente distantes, passam a se alimentar de informações pejorativas que são assimiladas sem que se considerem aspectos da comunicação, dos conflitos sociais e dos medos nos processos de estigma.

Quanto mais distante o outro for, mais manipulável será sua apresentação. Quanto mais distante em informações, mais desconhecida será a sua identidade. Essa lógica que fundamenta parte do “medo do outro” é sustentada na manipulação das informações sociais que fomentam a criação de estereótipos. Por meio dessa breve problematização  a frase de Morais (1981, p. 16) de que “onde há medo, há ameaças; e onde estão as ameaças está a violência” em vez de ser uma afirmação literal de uma situação pode ser alvo de reflexão sobre os locais de produção do medo e recepção desse. Assim, o medo deixaria de ser um sinal do sentimento de insegurança e de uma situação empírica de violência para ser compreendido como sentimento que é expresso em palavras, escutado e assimilado. Talvez tenhamos chegado ao momento de domesticação do “medo” e de compreender as lógicas sociais que o produzem e são influenciadas por ele.



Talvez tenhamos que falar cada vez mais sobre o medo e analisá-lo como elemento que tem orientado comportamentos e estruturas concretas da arquitetura urbana. Se músicas como a do compositor pernambucano Otto falam que “becos e praças são feitos para as desgraças/ o amor e o medo são pontas de facas” é porque os sentimentos difusos nos espaços urbanos têm ganhado uma dimensão importantíssima nas inquietações contemporâneas.

Enfim, o medo do outro, o medo da violência, o medo do desconhecido, o medo fundamentado na falta de informação, o medo produzido, o medo assimilado, o medo difundido são aspectos que podem ser considerados quando pensamos as relações sociais nas cidades de muros (Caldeira, 2000). Nessa perspectiva, é de fundamental importância o papel da Sociologia e da Antropologia Urbana, com estudos criteriosos e reflexões sobre os impactos do medo nas relações sociais, organizações espaciais e também na produção e uso social desse sentimento, pois, além de tudo isso, o medo também é usado, justificado e valorizado, indicando relações de poder estabelecidas entre determinados grupos.
  
*Jesus Marmanillo Pereira é doutor em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba e professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão.
Adaptado do texto “O medo do outro”
Fonte: http://sociologia.uol.com.br/violencia-urbana-e-o-medo/

sábado, 5 de setembro de 2015

Nova edição da Revista Iluminuras

Mais um número da Revista Iluminuras. Biev, PPGAS, IFCH, UFRGS
http://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/issue/current
v. 16, n. 39 (2015)

As incertezas do trabalho de campo: surpresas e obstáculos

Sumário

Apresentação 5-10 PDF


Ana Luiza Carvalho da Rocha, Hélio R. S. Silva
Organização 

Ana Luiza Carvalho da Rocha, Hélio R. S. Silva
Editoração
Camila Aveline 


Artigos
Retomando uma questão epistemológica e não moral: os imponderáveis da vida real 11-32 PDF
Gisela Macambira Villacorta 


Etnografía prospectiva: el trabajo en la fragilidad, lo incierto e incipiente 33-57 PDF
Eduardo Álvarez Pedrosian 


Autoria e autoridade no fazer antropológico: Como entender/explicar o radicalmente “Outro”? 58-76 PDF
Melânia Nóbrega de Farias 


Etnografia do etnógrafo 77-103 PDF
Vinicius Esperança 


Desafios do campo antropológico: o uso do Elan e da Teoria do Embodiment na etnografia 104-120 PDF
Isabelle de Araujo Lima e Souza, Ana Luisa Borba Gediel 


Amazon-Jap, uma ficção etnográfica 121-133 PDF
Gabriel O. Alvarez 


Construindo a rede transnacional Uchinaanchu: uma etnografia multisituada 134-160 PDF
Yoko Nitahara Souza 


Polícia e juventude: conflitos, incertezas e (des) confianças 161-183 PDF
Jonas Henrique de Oliveira 


Etnografando assaltos contra instituições financeiras: a publicação da pesquisa, seus impasses e desdobramentos 184-210 PDF

Jania Perla Diogénes de Aquino 

Etnografando a praça: os primeiros obstáculos de uma etnografia 211-225 PDF
Gabriela da Costa Araújo, Antônio Mauricio Dias da Costa 


Interações fotoetnográficas: O “Eu” e o “outro” na Praça de Fátima - ITZ 226-242 PDF
Jesus Marmanillo 


Narrativas e fotografias:memórias do tempo vivido na ruína “Casa e Bazar Nazaré de Izidoro Cunha Júnior”, em Santana do Capim-PA 243-262 PDF
Adão Souza Borges, Maria das Graças Ferraz 


Relatos de Campo Etnográfico

Diálogos da pesquisa com os estudos em antropologia visual e da imagem 263-274 PDF
Artur do Canto Wilkoszynski 


Resenhas
Resenha do livro: Um país chamado favela: a maior pesquisa já feita sobre favela brasileira. MEIRELLES, Renato & ATHAYDE, Celso. São Paulo: Edita Gente, 2014. 275-278 PDF
Ana Patrícia Barbosa
Um convite à Poética do Improviso 279-281 PDF
Rafael Hofmeister de Aguiar


Ensaios Fotográficos
O instante líquido: a fotografia e o processo de imersão na vida nas águas 282-294 PDF
Lanna Beatriz Lima Peixoto 


Entrevistas
Entrevista com Marco Antonio da Silva Mello 295-344 PDF
Felipe Berocan Veiga, Hélio R. S. Silva

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sociologia,Antropologia, História e Geografia no chão da Praça!

 Observar elementos da Sociologia na explicação dos movimentos nativistas ou nas grandes revoluções da História, perceber que conteúdos como migrações e conflitos geopolíticos podem ser explicados, em grande medida, pela História e Sociologia. Nisso consiste o exercício da interdisciplinaridade, cada vez mais exigida nas questões do ENEM.

         No blog pracasdotempo.blogspot.com.br  é um espaço para quem deseja perceber essa interdisciplinaridade nas situações mais comuns vivenciadas no cotidiano das Praças, Ruas e Avenidas. Trate-se de um projeto de extensão desenvolvido entre outubro de 2014 e outubro de 2015, desenvolvido pelo professor Jesus Marmanillo com o auxílio de três bolsistas do curso de Jornalismo e Licenciatura em Ciências Humanas, da Universidade Federal do Maranhão(Campus Imperatriz).

            Navegando pelo blog é possível verificar registros e uma serie de materiais e indicações de outros espaços que tratam da mesma temática. Destacamos o texto de Maron Sepetimio Ramos Neto cujo artigo: “Três autores e três conceitos: o uso dos estudos de imagens, memória e cotidiano para entender Bronislaw Malinowski, Jesus Marmanillo e Erving Goffman” nos traz um exemplo de diálogo entre a Antropologia, Sociologia e História.

 

 

http://pracasdotempo.blogspot.com.br/


sábado, 31 de janeiro de 2015

CHAMADA DE TRABALHOS - UNICAMP




CHAMADA DE TRABALHOS - UNICAMP
O II Encontro Internacional Participação, Democracia e Políticas Públicas será realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, na Unicamp, em Campinas, de 27 a 30 de abril de 2015.
O PRAZO FINAL PARA SUBMISSÃO DE PROPOSTAS TERMINA EM 3 DE FEVEREIRO DE 2015.
Acesse o site (http://www.pdpp2015.sinteseeventos.com.br) para conferir a programação do Encontro, a chamada de trabalhos e mais informações.
Aproveite e confirme sua presença no evento, realizando sua inscrição prévia com desconto!
Acesse e acompanhe também nossa página no Facebook: www.facebook.com/encontropdpp
Inscreva-se, contate suas redes, e venha fazer conosco este II Encontro!
Seja bem vindo a Campinas e à Unicamp!
Wagner de Melo Romão
Coordenador Geral do II Encontro Internacional Participação, Democracia e Políticas Públicas
Departamento de Ciência Política
Universidade Estadual de Campinas
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O PRAZO FINAL PARA SUBMISSÃO DE PROPOSTAS TERMINA EM 3 DE FEVEREIRO DE 2015.
Acesse o site (http://www.pdpp2015.sinteseeventos.com.br) para conferir a programação do Encontro, a chamada de trabalhos e mais informações.
Acesse e acompanhe também nossa página no Facebook: www.facebook.com/encontropdpp

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

ARCHÉ TUPI ou Uma leitura arquetípica da mulher índia em Casa-Grande & Senzala

Disponível para download o livro  "ARCHÉ TUPI ou Uma leitura arquetípica da mulher índia em Casa-Grande & Senzala" de Paulo Milhomens


Clique na imagem para download

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Chamada de trabalho / Call for papers: História e Política nas Fronteiras


Dr. Wheriston Silva Neris (UFMA/Bacabal) wheristoneris@yahoo.com.br Me. JesusMarmanillo Pereira (UFMA / Imperatriz) jesusmarmanillo@hotmail.com

Este simpósio temático se propõe como um espaço de debate sobre as relações entre história e política, com especial atenção às pesquisas dedicadas a apreender as modalidades de participação política tanto em suas manifestações mais oficiais, legítimas e formalizadas, quanto aquelas investigações que se autorizam a considerar como políticos os interesses, as atitudes e práticas situadas para além das fronteiras da esfera política especializada. Assim, ao lançar um convite para historiadores, sociólogos, antropólogos, entre outros, o que se deseja é colocar lado a lado pesquisas que versam tanto sobre as instâncias convencionais da política (tais como partidos, eleições, voto, sindicatos), quanto aquelas que se autorizam a explorar a política como um fenômeno que pode afetar qualquer domínio de atividade (sejam elas econômicas, culturais, jurídicas, associativas, religiosas, etc.). Ancorado nas pesquisas que os proponentes vêm conduzindo sobre movimentos sociais, religião e política no Maranhão contemporâneo, com o presente simpósio visamos estimular novas formas de apreensão da política como dependente do social, do cultural e da própria história. Uma das principais vantagens dessa concepção consiste justamente nas possibilidades e desafios que ela oferece para exploração de fenômenos e ações políticas em configurações históricas variadas. A começar pela importância adquirida pelo contexto histórico social e a própria variabilidade de sua influência sobre as formas de politização de atores, atividades e domínios sociais. Outra entrada interessante consiste em tentar apreender os sentidos que indivíduos e grupos concretos atribuem a ações, relações, paixões e identidades coletivas que eles consideram como políticas. Da mesma forma, se interessa investigar como a política faz sentido na vida dos indivíduos, importa também atentar para a forma como as variações conjunturais, organizacionais e pessoais afetam as condições de enunciação e categorização daquilo que é etiquetado como político. O estudo de indivíduos e grupos que contribuem para a politização de determinados temas e problemas sociais constitui outro eixo importante, ao qual pode-se associar tanto a questão tanto das disposições e competências favoráveis ao engajamento político, quanto a problemática das formas organizacionais de apoio ao surgimento de mobilizações, movimentos sociais e formas de tomada de consciência. Além disso, pretende-se constituir um espaço para pesquisadores e estudantes, onde seja possível lançar tanto, uma reflexão sobre os limites e fronteiras da história, quanto compreender novas possibilidades de abordagem e problematização de fontes utilizadas nos estudos sobre as imbricações entre configurações históricas e as modalidades variadas de engajamento e participação política.

Período: 11-13/12/2014.
Local: Campus da Universidade Federal do Maranhão, Bacabal, Maranhão.


Sobre o  VI Encontro Estadual de História:

 o evento é promovido pela Associação Nacional de História (ANPUH) – Regional do Maranhão, em parceria com o Colegiado de Ciências Humanas do Campus de Bacabal e o Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Maranhão, e ainda com o Departamento de História e Geografia e o Programa de Pós-Graduação em Ensino, História e Narrativas da Universidade Estadual do Maranhão, se constitui como um dos mais significativos eventos periódicos do Estado, e um dos mais importantes do Norte e Nordeste, no sentido da reflexão de questões vinculadas à História e áreas afins. É um espaço de apresentação e discussão de pesquisas e temas em História e objetiva reunir pesquisadores, professores e estudantes dos diferentes níveis de ensino, a partir de temáticas que possibilitem a troca de informações e experiências do fazer historiográfico e contribuam para um conhecimento mais complexo relativo às diversas questões que perpassam a história do Maranhão, do Brasil e do mundo.
Com a edição deste ano, as Universidades, através de seus Departamentos e Colegiados, e a regional maranhense da Associação Nacional de História, pretendem enfocar duas das discussões mais relevantes do campo: de um lado, aquela referente à própria produção do saber historiográfico, dando-se ênfase às diferentes narrativas por meio do qual esse saber se constitui; de outro lado, enfatizam-se as complexidades da transmissão de hábitos, práticas e protocolos próprios ao ofício do historiador e as diversas formas de atuação desses profissionais: em salas de aula da educação básica, arquivos, bibliotecas, instituições culturais e de memória, organizações sociais, entre outros.
As entidades promotoras têm uma longa trajetória de atuação na área de História, no Estado do Maranhão e no país. A Associação Nacional de História – ANPUH foi fundada em 19 de outubro de 1961, e é a mais importante associação de profissionais de História do Brasil. A Regional maranhense da ANPUH congrega professores e pesquisadores de História das Universidades maranhenses, além de graduados e graduandos, pós-graduados e pós-graduandos em História do Estado.
São objetivos da ANPUH:

1.      O aperfeiçoamento do ensino de História em seus diversos níveis;
2.      O estudo, a pesquisa e a divulgação de assuntos de História;
3.      A defesa das fontes e manifestações culturais de interesse dos estudos históricos;
4.      A defesa do livre exercício das atividades dos profissionais de História;
5.      A representação da comunidade dos profissionais de História perante instâncias administrativas, legislativas, órgãos financiadores e planejadores, entidades científicas ou acadêmicas.

O tema escolhido para o evento deste ano, Ensino, Narrativas e Interdisciplinaridade, insere os historiadores e outros profissionais de áreas próximas na discussão relativa às produções do saber historiográfico e sua relação com a docência, especialmente, com o ensino. O tema é praticamente homônimo do mais novo Programa de Pós-Graduação em História do Maranhão, sediado na Universidade Estadual do Maranhão, o que permitirá um espaço de diálogo permanente com a constituição deste programa, bem como com o Programa de Pós-Graduação em História da UFMA, mais antigo. Além disso, e posto que o evento será sediado no Campus de Bacabal, onde, a exemplo de outros campus da UFMA, como Codó, Pinheiro, São Bernardo, Imperatriz e Grajaú, ocorre a Licenciatura Interdisciplinar em Ciências Humanas (com foco em História, Geografia, Sociologia e Filosofia), decidiu-se enfatizar a questão da interdisciplinaridade para discutir possíveis experiências inter, multi e transdisciplinares desde o saber histórico e a produção historiográfica.
O público do evento é constituído por estudantes e profissionais de História e áreas afins, além de todas as pessoas interessadas na discussão do tema História: Narrativas, Ensino e Interdisciplinaridade. Teremos especial atenção com a divulgação do evento e consequente participação de estudantes que cursam os programas de interiorização das universidades públicas maranhenses, como Proeb, Profbpar e Programa Darcy Ribeiro, nos diversos municípios do interior maranhense. Da mesma forma, estamos divulgando o VI Encontro Estadual junto às comunidades acadêmicas do país, especialmente do Norte e Nordeste, em vista da tradição de participação de pesquisadores e estudantes de outros Estados nas versões anteriores do evento.

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